ENTREVISTA | PODER FEMININO

De presidente da Câmara à Prefeitura: Majô comanda Maringá por dez dias e abre o jogo em entrevista exclusiva

Prefeita de Maringá em exercício, Majô Capdebosq | Foto: Burzega | Portal de Maringá

Por Marcos Roberto | Portal de Maringá

A trajetória de Majô Capdebosq na política maringaense é feita de marcos históricos. Eleita vereadora em 2024, ela se tornou, em março de 2025, a primeira mulher a presidir a Câmara Municipal em 73 anos, assumindo o comando do Legislativo da terceira maior cidade do Paraná. Agora, em setembro de 2026, a presidente da Casa vive mais um capítulo inédito: é ela quem ocupa o gabinete da Prefeitura de Maringá, como prefeita em exercício, durante o período de ausência do prefeito Silvio Barros.

A chegada ao Executivo, ainda que temporária, seguiu o que determina a Lei Orgânica do Município. Em entrevista ao Portal de Maringá, Majô conta que sua principal preocupação ao assumir foi garantir a continuidade do trabalho que Silvio Barros vem desenvolvendo na cidade, para que nada ficasse parado durante esses dias. “O tempo é curto e Maringá precisa avançar”, afirma.

O caminho até o cargo, porém, não foi rápido. A vereadora revela que se candidatou outras três vezes antes de conquistar a primeira eleição, em 2012, 2016 e 2020, até alcançar a vaga no Legislativo em 2024. Foram 12 anos de tentativas, que ela atribui a um propósito construído com perseverança e preparo: a formação em Educação Física, o mestrado na área de saúde, a especialização em Gestão Pública e a experiência como apresentadora do programa Mulher em Foco.

À frente da Câmara, Majô aposta em uma gestão marcada pela modernização e pela aproximação com a população. Entre as iniciativas estão o projeto Câmara com Você, que leva o Legislativo aos bairros e distritos, o tour virtual interativo pela estrutura da Casa e a Escola do Legislativo, setor premiado com o Prêmio Gestor Público em 2025. A defesa do empreendedorismo feminino também atravessa sua atuação: ela fundou o Women’s Business Maringá, integra a ACIM Mulher e criou o Rotary Mulher Empreendedora, além de ter impulsionado projetos como o Desenrola Maringá, o MEI Resolve e o Mulher Forte, Cidade Forte.

Sobre o futuro, a prefeita em exercício é objetiva: pretende concorrer à reeleição como vereadora em 2028 e trabalhar pela reeleição de Silvio Barros. Entre os sonhos, deixa claro o desejo de construir um equipamento público de excelência para o atendimento de crianças autistas e de seguir lutando por uma cidade com mais oportunidades para as mulheres.

No Ping-pong a seguir, Majô Capdebosq fala sobre a quebra de paradigma de ser a primeira mulher a presidir a Câmara, os desafios da gestão, a experiência à frente da Prefeitura e o que a inspira na política. Confira a entrevista na íntegra.

Foto: Burzega | Portal de Maringá

1. Majô, você fez história: foi a primeira mulher a presidir a Câmara em 73 anos. Quando caiu a ficha?

R: A ficha foi caindo aos poucos. No momento da eleição, eu estava muito concentrada na responsabilidade que estava assumindo, uma decisão importante, uma grande responsabilidade com os vereadores e, principalmente, com a população de Maringá. Depois, com o passar do tempo, fui percebendo a dimensão histórica daquele momento. Ser a primeira mulher a presidir a Câmara depois de 73 anos não é apenas uma conquista pessoal, é uma porta que se abre para outras mulheres também ocuparem espaços públicos e de decisão. Sou muito grata por essa oportunidade, mas também tenho a consciência de que preciso trabalhar e mostrar, na prática, que uma mulher pode conduzir o Legislativo com diálogo, firmeza e responsabilidade.

2. Qual foi a primeira cobrança que você ouviu apenas por ser mulher?

R: A política ainda não é um ambiente em que as mulheres se sentem confortáveis para ocupar cadeiras. Geralmente somos subestimadas, e isso fica mais visível quando assumimos uma função de liderança. Por entender a responsabilidade de ser chefe do Poder Legislativo da terceira maior cidade do Paraná e primeira mulher a ocupar essa função, me dedico muito no desempenho das atividades. Acredito que a melhor resposta é o trabalho e os resultados apresentados.

Gestão da Câmara

1. Da gestão de Hossokawa para a sua, qual é a sua marca?

R: Eu acredito que cada gestão tem seu momento e sua forma de acontecer. A minha visão é deixar o Legislativo maringaense mais moderno, eficiente e próximo das pessoas. Por isso, estamos desenvolvendo melhorias nos processos e fluxos de trabalho internos da Câmara, com a implementação de novas tecnologias e softwares que vão auxiliar no dia a dia dos trabalhos dos servidores. Com o projeto Câmara com Você, vamos levar o Legislativo para os bairros e distritos de Maringá, aproximando das pessoas a nossa atuação parlamentar. Valorizamos e estamos intensificando a atuação da Escola do Legislativo, setor premiado em nossa gestão com o Prêmio Gestor Público no ano de 2025. Além disso, estamos em andamento com a modernização e a revisão do Regimento Interno para atender, além de demandas identificadas, algumas sugestões do próprio Tribunal de Contas do Estado.

2. Transparência e comunicação: como aproximar o Legislativo de quem acha que vereador não faz nada?

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R: Os vereadores são os políticos mais próximos das pessoas, por isso defendo um Legislativo mais presente, nos bairros, e não somente na sede, no centro da cidade. Estamos investindo em comunicação, deixando-a mais atual e moderna para se comunicar com as diferentes faixas etárias. Com a Escola do Legislativo, estamos levando educação política de maneira lúdica, explicando a diferença de atuação entre os poderes Executivo e Legislativo por meio de quiz e jogos educativos. Criamos o tour virtual interativo que, além de filmar a estrutura do prédio da Câmara, explica os setores, como a Procuradoria da Mulher, a Diretoria Legislativa e as Comissões, e mostra os vereadores se apresentando dentro de seus gabinetes. Não podemos partir do pressuposto de que as pessoas conheçam de maneira técnica as nossas atribuições; por isso, assumimos o protagonismo e estamos engajados nessa atuação.

3. Cassações, polêmicas e gabinetes — incluindo a reforma da Câmara. Qual foi o momento mais difícil na cadeira de presidente?

R: A Presidência exige tomar decisões difíceis, inclusive em momentos de muita pressão e desafios, o que não é um problema para mim, porque eu gosto de desafios. O mais importante foi tentar separar a pressão política da responsabilidade institucional, ainda mais sendo a primeira legislatura com 23 vereadores, juntamente com a reforma da Câmara. Cada situação é diferente, com um desafio diferente, e eu sou movida a desafios. Então procurei ouvir, buscar informações e tomar as decisões dentro das regras e do que entendia ser o melhor para o funcionamento da Câmara.

Mas acredito que um dos momentos mais difíceis, não só para mim, mas também para todos os servidores, foi a reforma da casa. Sabemos que gerir uma obra pública é muito complexo, ainda mais para o Legislativo, que não é algo rotineiro em nossa atuação. Existem problemas que exigem decisões rápidas, responsáveis e que precisam de um parecer técnico qualificado, e os servidores abraçaram essa reforma, andaram junto comigo e seguimos fazendo um bom trabalho.

Da Câmara para a Prefeitura

1. Agora, como prefeita interina de Maringá, qual foi sua primeira ordem no gabinete?

R: Desde que fiquei sabendo, a minha maior preocupação era dar continuidade ao trabalho que o prefeito Silvio Barros está fazendo em Maringá. Eu sabia que seria por um tempo determinado e que eu precisaria entender as demandas e os compromissos que já estavam acontecendo pela cidade, para que nada ficasse parado durante esse período. O tempo é curto e Maringá precisa avançar.

2. O que Silvio Barros pediu para você cuidar com mais carinho nesses 10 dias?

R: Somos uma cidade que respeita a independência e a harmonia entre os poderes; temos muito diálogo, colocando Maringá em primeiro lugar. Meu papel como chefe do Poder Legislativo, que, seguindo a Lei Orgânica do Município, assume a prefeitura na ausência do prefeito e do vice, é garantir que a cidade tenha suas necessidades atendidas. Não houve um pedido específico por parte do prefeito, mas conversamos e apresentei algumas ideias que gostaria de implementar nesse período em que estarei como prefeita interina.

3. Dá frio na barriga ou você já se sente pronta para disputar o Executivo em 2028?

R: É um desafio que aceito com muita responsabilidade e serenidade, afinal somos a terceira maior cidade do Estado do Paraná. Estou muito focada na minha condição atual de presidente do Poder Legislativo; é uma experiência importante e quero aproveitar esses dias para trabalhar, aprender e contribuir com Maringá. Sobre 2028, vou à reeleição de vereadora e vamos trabalhar para a reeleição de Silvio como prefeito de Maringá.

Mulher, empreendedora e política

1. Você criou o Women’s Business Maringá, participa da ACIM Mulher e fundou o Rotary Mulher Empreendedora. O empreendedorismo feminino é discurso ou política pública?

R: Para mim, o empreendedorismo é uma ferramenta de transformação social, uma política pública capaz de mudar realidades, tirar pessoas da pobreza e libertar mulheres do ciclo de violência. Estudos apontam que mulheres empreendedoras são chefes de família e empreendem por necessidade, enquanto os homens empreendem por oportunidade. Elas precisam de um olhar diferenciado, pois têm necessidades diferentes dos homens que empreendem. Ambos são muito importantes para a economia; a segmentação é importante para termos políticas públicas eficazes para cada perfil.

Tanto a fundação do Women’s Business, que reúne grupos de empreendedorismo feminino, quanto a participação na ACIM Mulher são realizações anteriores ao mandato político. Durante o mandato, consolidamos a atuação em defesa da liberdade econômica e do empreendedorismo, com a aprovação e a realização, entre outras, das ações:

  • Desenrola Maringá (liberação de mais de 2 mil processos de alvará que estavam represados na Secretaria de Fazenda);
  • MEI Resolve (contratação de empreendedores individuais para a realização de serviços de pequena monta para a Prefeitura);
  • Mulher Forte, Cidade Forte (qualificação e inserção das mulheres no mercado de trabalho e empreendedorismo feminino);
  • Jornada do Empreendedorismo Feminino (evento que reuniu mais de 500 mulheres, levando capacitação e networking);
  • Van para o Espaço do Empreendedor, para descentralizar a atuação do setor.
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2. Qual projeto seu, focado em autismo, mulheres e inclusão, você quer deixar como legado?

R: Se eu pudesse deixar um legado, gostaria que fosse o de ajudar a construir uma cidade onde as mulheres tenham mais oportunidades para empreender, crescer e conquistar sua independência. Essa é uma bandeira que faz parte da minha trajetória muito antes da política, e hoje eu tenho a oportunidade de transformar essa experiência em políticas públicas.

Atuo na defesa da maternidade atípica e das doenças raras e sonho em construir um equipamento público de excelência para o atendimento de crianças autistas. Mais do que deixar um projeto específico, eu gostaria de deixar uma forma diferente de olhar para essas pessoas: entendendo que dar oportunidade, autonomia e condições para que elas possam construir seus próprios caminhos também é fazer política pública. Se, daqui a alguns anos, uma mulher puder dizer que encontrou na política pública um caminho para começar, fortalecer ou transformar o próprio negócio, esse será um legado que vai fazer sentido para mim.

3. Formação em Educação Física, mestrado em Saúde, especialização em Gestão Pública e apresentadora do programa Mulher em Foco. Como tudo isso cabe na política?

R: Cabe porque política pública é feita para pessoas, e minha trajetória sempre esteve muito ligada às pessoas. A Educação Física e a área da saúde me deram uma visão muito forte sobre qualidade de vida. O empreendedorismo me ensinou sobre gestão, desafios e geração de oportunidades. A comunicação me ensinou a ouvir, a traduzir assuntos complexos e a conversar com públicos diferentes, e a especialização em Gestão Pública trouxe ferramentas para entender melhor como o poder público funciona. Então eu não vejo essas experiências como caminhos separados; elas se complementam e ajudam a formar a maneira como eu enxergo a política.

Futuro — bate-pronto

1. Maringá em uma palavra.

R: Oportunidade.

2. Uma mulher que inspira você na política.

R: Cida Borghetti e a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher.

3. O que você não aceita mais ouvir sobre as mulheres na política?

R: Eu não aceito mais que a capacidade de uma mulher seja colocada em dúvida simplesmente porque ela é mulher. Ainda existe uma cobrança diferente sobre a forma como as mulheres se posicionam, lideram e tomam decisões. Mulher não precisa escolher entre ser firme e ser acolhedora, entre ser profissional e ser mãe, entre liderar e ser feminina. Podemos ocupar espaços de decisão sendo quem somos. O que precisa ser avaliado é o nosso trabalho, as nossas decisões e os resultados que entregamos.

4. Majô, daqui a dez anos: onde você se vê?

R: Daqui a dez anos, eu espero estar fazendo aquilo que sempre procurei fazer: trabalhando, aprendendo e contribuindo para transformar a vida das pessoas. O cargo pode mudar, mas o propósito de trabalhar por Maringá e pelas pessoas continua.

Última pergunta

Majô, em um ano e meio, você fez o que ninguém havia feito em 73 anos:

  • 2024: eleita vereadora;
  • março de 2025: eleita a primeira mulher presidente da Câmara;
  • setembro de 2026: prefeita de Maringá.

Você acredita em Deus? Se sim, não acha que Ele elevou muito a sua régua?

R: Acredito que só vive o propósito quem suporta o processo, e o processo até chegar à eleição em que fui eleita foi bem intenso. Fui eleita em 2024, mas o que poucos sabem é que eu me candidatei outras três vezes antes disso e não fui eleita (2012, 2016 e 2020). Hoje tenho plena convicção de que Deus agiu na minha vida exatamente como tinha de ser; eu não estava preparada para assumir o cargo eletivo antes. Foram 12 anos de luta, perseverança e aprendizado, e acredito que só permanece firme diante de tantas dificuldades quem tem fé. Eu tinha em meu coração que esse é o propósito de Deus na minha vida: estar na política sendo a voz de todos que pensam que não têm voz. Deus me fez uma pessoa com um nível de autocobrança e autocrítica muito alto. Fui candidata pela primeira vez em 2012 e, nessa eleição, estava cursando o mestrado na UEM/UEL, quando entendi que o propósito de Deus em minha vida era estar na vida pública. Assim que defendi minha dissertação, me matriculei na pós-graduação em Administração Pública. Me preparei a vida toda para estar onde estou hoje.

 

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