Por Fernando Cruz
No consultório ginecológico, algumas perguntas fazem parte da rotina. Elas ajudam a compreender a história da paciente, identificar fatores de risco e orientar o cuidado. Entre elas, uma é aparentemente simples: “Com que idade ocorreu sua primeira relação sexual?”
Na medicina, esse dado é chamado de sexarca.
Mas, ao longo dos anos, aprendi que essa pergunta pode abrir uma porta para histórias profundamente dolorosas. Por isso, logo em seguida, faço outra questão: “Foi uma experiência consentida?”
Muitas vezes, é nesse momento que o silêncio se instala. Os olhos se enchem de lágrimas. A voz falha. E, de repente, a paciente revela algo que esteve guardado por décadas: o abuso sexual sofrido na infância ou na adolescência.
Infelizmente, essa realidade está longe de ser rara.
No consultório, a vivência confirma aquilo que as estatísticas já demonstram. Em grande parte dos casos, o agressor não é um estranho. É alguém próximo: um tio, padrasto, avô, vizinho, amigo da família ou qualquer pessoa que se aproveita da confiança e da vulnerabilidade de uma criança.
O abuso sexual infantil não termina no momento em que ocorre. Ele se prolonga no tempo, deixando marcas emocionais e físicas que podem acompanhar a mulher por toda a vida.
Medo, vergonha, culpa e até nojo do próprio corpo são sentimentos frequentemente relatados. Muitas vítimas crescem acreditando que foram responsáveis pelo que aconteceu. Outras enterram essa memória tão profundamente que só conseguem falar sobre ela muitos anos depois, em um ambiente de acolhimento e segurança.
Como médico, uma das primeiras coisas que procuro fazer é ouvir sem julgamentos e reafirmar algo fundamental: a culpa nunca foi da vítima.
Nenhuma criança é responsável pela violência que sofreu.
Recentemente, atendi uma paciente cuja história me marcou profundamente. Ainda criança, ela foi abusada sexualmente por um tio no estado onde vivia. Aos 14 anos, mudou-se para Mato Grosso. Segundo suas próprias palavras, foi somente então que conseguiu experimentar um pouco de paz.
Mas a paz não apaga as cicatrizes.
Os traumas do abuso podem se manifestar de diversas formas ao longo da vida: ansiedade, depressão, dificuldade de estabelecer relacionamentos afetivos, medo da intimidade, dor durante as relações sexuais, alterações hormonais associadas ao estresse crônico e uma relação conflituosa com o próprio corpo.
Na ginecologia, tratamos útero, ovários e hormônios. Mas, muitas vezes, o que realmente precisa de cuidado é uma ferida invisível, instalada na alma.
Por isso, o atendimento vai muito além de exames e prescrições. É necessário escutar, acolher e, quando indicado, encaminhar para acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Cuidar da saúde da mulher significa também reconhecer as dores que não aparecem em ultrassons ou exames laboratoriais.
O abuso sexual infantil é uma violência devastadora, que rouba a inocência e compromete o desenvolvimento emocional de meninos e meninas. Seus efeitos podem atravessar décadas, interferindo na autoestima, na sexualidade, na maternidade e na qualidade de vida.
Como sociedade, precisamos romper o pacto do silêncio.
É dever de todos – familiares, educadores, profissionais de saúde e autoridades – proteger nossas crianças, identificar sinais de violência e denunciar qualquer suspeita.
E, para as mulheres que carregam essa história em silêncio, deixo uma mensagem clara: vocês não têm culpa. Nunca tiveram.
Falar sobre o trauma é doloroso, mas também pode ser o primeiro passo para ressignificar a própria história.
Porque nenhuma violência deve definir o futuro de quem a sofreu.
























