Um cenário desolador de destruição, comparável a uma zona de guerra, marcou Rio Bonito do Iguaçu, cidade de 14 mil habitantes no Centro-Sul paranaense, após a passagem de um tornado na última sexta-feira (07). Mais de mil pessoas estão desalojadas, abrigadas em casas de familiares e amigos, e as perdas materiais são imensuráveis. No entanto, em meio aos escombros, a esperança e a solidariedade emergem como forças motrizes para a reconstrução, amparadas pela mobilização da comunidade e por um aporte de R$ 50 milhões do Governo do Estado.
A cidade, que teve cerca de 90% de seu território afetado, com residências e prédios públicos severamente danificados ou destruídos, iniciou os trabalhos de limpeza e as primeiras ações de reerguimento. Histórias de susto, perda e resiliência se misturam nas ruas tomadas por entulhos.
Relatos de Sobrevivência e Recomeço
Romualdo Vovani, 45 anos, morador de Laranjeiras do Sul, chegou em Rio Bonito do Iguaçu minutos após a tempestade e encontrou a casa e o comércio dos pais, construídos em mais de 30 anos de trabalho, completamente destruídos. “Era o ganha-pão deles. A sensação que a gente vive nesse momento é indescritível, porque você não sabe o que vai encontrar. Eu pensava ‘será que vou encontrar meus pais com vida?’, e graças a Deus foi só perda material”, relata Romualdo, que agora se dedica à árdua tarefa de limpar a cidade ao lado de muitos voluntários. “A gente sente que o poder público está bastante preocupado. Ninguém estava preparado para algo assim, ninguém tem dinheiro guardado para esse tipo de situação. E o que a gente mais tem visto é a solidariedade. Além da ajuda prática, aquece o coração saber que as pessoas estão preocupadas e solidárias nesse momento tão difícil.”
José Godoy, 41 anos, ex-militar da Marinha e veterano da missão de paz no Haiti, vivenciou um pânico diferente e mais íntimo ao saber que sua esposa, grávida de quatro meses, estava sozinha em casa durante o temporal. “Ela estava apavorada, passando mal. Disse que escutou um estrondo, tentou se proteger como pôde, se abaixou debaixo da mesa enquanto caíam pedaços do telhado.” Para José, a prioridade é a vida. “Os bens materiais a gente recupera. Mas eu fiquei feliz e aliviado por achar ela com vida. Isso é o mais importante. Claro que dá tristeza ver tudo destruído, mas aos poucos se recupera. A vida, não. A vida é irrecuperável.”
O estudante Eduardo Henrique Zanotto, 22 anos, e sua família viveram momentos de terror quando o telhado da casa começou a ser arrancado. Eles se abrigaram no banheiro, enquanto seu pai, arrastado e ferido, se protegeu debaixo de uma mesa. Mesmo debilitado, o pai de Eduardo mostrou heroísmo, dirigindo uma ambulância para levar feridos a Laranjeiras do Sul, pois não havia motorista disponível. “Acho que ele sentiu que precisava ajudar, e foi o que ele fez”, conta Eduardo, emocionado com a onda de solidariedade. “Ver tanta gente se unindo assim é muito importante. Dá força pra seguir em frente.”
Carla Kerkhoff, 24 anos, e seu marido conseguiram se abrigar debaixo de uma mesa antes que o telhado desabasse sobre sua casa alugada, resultando em perda total. Carla sofreu ferimentos nas pernas e escoriações. Vivendo agora em casa de parentes, ela vê nas medidas de apoio, como a ajuda financeira, um sopro de esperança. “Essa ajuda é essencial para a gente. É o que vai salvar nossa vida agora.”
A idosa Anatália Lunardi, 63 anos, também se escondeu debaixo de uma mesa de madeira enquanto os vidros da sua casa estilhaçavam. “Foi feia a coisa. Quando conseguimos sair, olhamos a vizinhança, tudo destruído, todo mundo na mesma situação. Foi apavorante”, relembra. Apesar do choque, ela mantém a fé na recuperação. “Agora é a hora da reconstrução. Um ajuda o outro, e assim a gente vai tentando levantar. Não é fácil para ninguém, mas a gente tem que ter força para recomeçar.”
Apoio Governamental e Esforço Conjunto
O Governo do Estado do Paraná agiu rapidamente, destinando cerca de R$ 50 milhões do Fundo Estadual de Calamidade Pública (Fecap) para auxiliar na reconstrução do município. Um projeto de lei foi encaminhado à Assembleia Legislativa para permitir que esses recursos cheguem diretamente às famílias, com valores de até R$ 50 mil para a reconstrução de suas casas.
A Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar), em parceria com engenheiros do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná (CREA/PR), está levantando os prejuízos para direcionar os recursos de forma eficaz. Além disso, a Secretaria de Estado da Educação já autorizou a reconstrução das escolas danificadas e, preventivamente, adiou a aplicação da prova do Enem na cidade.
Apesar da dor e da magnitude da tragédia, Rio Bonito do Iguaçu demonstra uma força inabalável. A união da comunidade, o apoio governamental e a esperança de um novo começo são os pilares que impulsionam a cidade rumo à reconstrução.





















